A onicomicose é uma das patologias mais frequentes na rotina podológica. Ainda assim, muitos profissionais enfrentam um problema frustrante: a recorrência.
O paciente trata, melhora parcialmente e, após semanas ou meses, a infecção retorna — mesmo com boa adesão aparente ao tratamento.

Quando isso acontece, o erro raramente está apenas no antifúngico. Na maioria dos casos, a causa está fora da unha: microtraumas repetitivos, pressão mecânica, alterações da marcha e falhas no diagnóstico diferencial.

Este artigo aprofunda as verdadeiras causas da onicomicose recorrente e mostra como o podólogo pode atuar de forma mais resolutiva.


1. O que caracteriza a onicomicose recorrente?

Considera-se recorrente quando:

  • há reaparecimento da infecção após tratamento completo;

  • a lâmina melhora parcialmente, mas não normaliza;

  • a infecção retorna sempre no mesmo local;

  • há resistência ao tratamento tópico convencional;

  • o paciente relata “já tratei várias vezes e sempre volta”.

A literatura aponta taxas de recidiva entre 20% e 50%, dependendo do perfil do paciente e da abordagem terapêutica (Gupta et al., 2018).


2. Erros comuns no manejo clínico

2.1. Foco exclusivo no fungo

Tratar apenas o agente infeccioso ignora o ambiente ungueal e as forças mecânicas que mantêm o problema.

2.2. Diagnóstico presuntivo

Nem toda alteração ungueal é onicomicose. Psoríase ungueal, trauma crônico, onicólise mecânica e retroníquia podem simular infecção fúngica.

2.3. Falta de controle do microambiente

Umidade, calor, calçados fechados e pouca ventilação favorecem a persistência do fungo.


3. A causa invisível: microtraumas e pressão mecânica

Um dos fatores mais negligenciados é a pressão repetitiva sobre a lâmina ungueal.

Como isso acontece?

  • calçados apertados ou com biqueira baixa;

  • alterações de marcha;

  • dedos em garra ou supraduzidos;

  • hiperpressão distal ou dorsal;

  • impacto repetitivo durante a propulsão.

Esses microtraumas:

  • rompem a barreira ungueal;

  • criam microfissuras;

  • reduzem a oxigenação local;

  • favorecem a colonização fúngica.


4. Relação entre marcha, biomecânica e recidiva

Pacientes com alterações biomecânicas apresentam padrões repetitivos de compressão ungueal.

Sinais clássicos:

  • unha sempre escurece no mesmo ponto;

  • descolamento distal recorrente;

  • espessamento localizado;

  • dor ao caminhar, mas não em repouso;

  • desgaste assimétrico do calçado.

Esses achados indicam que o fungo é consequência, não a causa primária.


5. Avaliação clínica ampliada: o que o podólogo deve observar

Além da lâmina ungueal, avalie:

5.1. Biomecânica

  • fase de propulsão;

  • posição do hálux;

  • pressão no antepé;

  • alinhamento digital;

  • tempo de apoio.

5.2. Calçados

  • largura da biqueira;

  • altura do box;

  • rigidez do solado;

  • padrão de desgaste.

5.3. Ambiente ungueal

  • umidade constante;

  • presença de onicólise;

  • hiperqueratose periungueal;

  • higiene inadequada.


6. Intervenções que reduzem a recorrência

6.1. Redução da pressão mecânica

  • orientação de calçados;

  • ajuste do box;

  • troca de modelos inadequados.

6.2. Ortoplastias e suportes digitais

  • redistribuem carga;

  • reduzem impacto;

  • protegem a lâmina durante a marcha.

6.3. Correção biomecânica

Quando indicado:

  • suporte digital;

  • palmilhas funcionais;

  • ajustes posturais simples.

6.4. Tratamento antifúngico associado

O tratamento medicamentoso funciona melhor quando a causa mecânica é controlada.


7. Diagnóstico diferencial: nem tudo é fungo

Antes de insistir no tratamento, considere:

  • psoríase ungueal;

  • trauma crônico;

  • onicólise mecânica;

  • retroníquia;

  • distrofias ungueais não infecciosas.

Em casos duvidosos, encaminhe para exame micológico ou avaliação dermatológica.


8. Quando encaminhar ao dermatologista?

Encaminhe quando houver:

  • falha terapêutica persistente;

  • dor intensa;

  • inflamação periungueal;

  • suspeita de doença sistêmica;

  • necessidade de terapia sistêmica.

A atuação integrada fortalece o cuidado e valoriza o papel do podólogo.


9. Orientações essenciais ao paciente

  • manter unhas curtas e retas;

  • secar bem os pés após banho;

  • alternar calçados;

  • evitar meias sintéticas;

  • não compartilhar instrumentos;

  • seguir o tratamento até o fim.

Educação reduz drasticamente a recidiva.


10. Conclusão

A onicomicose recorrente raramente é apenas um problema infeccioso.
Na maioria dos casos, ela revela falhas mecânicas, biomecânicas e ambientais que precisam ser tratadas em conjunto.

O podólogo que amplia o olhar — da unha para o movimento — reduz recidivas, melhora resultados e eleva o nível da prática clínica.


Referências (ABNT)

 

GUPTA, A. K. et al. Onychomycosis recurrence: clinical factors and prevention. Journal of the American Academy of Dermatology, 2018.
TOLEDO, I. Avaliação funcional e alterações ungueais. Revista Digital de Podologia, 2023.
WALLACE, J. Biomechanics and nail trauma. Clinics in Podiatric Medicine, 2020.
BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Doenças Ungueais. Brasília, 2022.
RICHERT, B. Nail disorders and mechanical trauma. Dermatologic Clinics, 2019.